Renato Mendonça escreve sobre o espetáculo Miragem

foto: André Feltes
foto: André Feltes

A vida é um jogo de espelhos

Cheguei à Sala Álvaro Moreyra para assistir a “Miragem” levando comigo uma expectativa bem real. Não que eu quisesse. Defendo que se devem valorizar ao máximo aqueles minutos em que estamos na condição de espectadores. Qualquer previsão, seja favorável ou desfavorável, interfere na nossa recepção.

Mas essa atitude cool, admito, é difícil. Especialmente no caso de “Miragem”, que em 2013 recebera um Prêmio Especial do júri do Troféu Açorianos com a observação de que a peça trazia “de forma significativa propostas inovadoras e criativas quanto à forma da encenação. (…) alguns dos modos operatórios presentes na montagem deste espetáculo compõem um diversificado e original momento para as poéticas de criação em Artes.”

Além disso, “Miragem” (http://projetomiragem.wordpress.com/o-projeto/) marca a estreia do projeto Movimentos Rústicos, em que membros da Cia Rústica desenvolvem projetos pessoais. E mais: qual a linha de direção de Lisandro Bellotto, que pertence simultaneamente à Rústica e à performática Cia Espaço em BRANCO?

Antes de seguir comentando “Miragem”, adianto que o final foi feliz.

Já na fila de espera, Marina Mendo interage com o público perguntando qual o maior medo que cada um sentiu na vida. Parece que este será o mote do espetáculo – só que não. E esse seria o grande reparo que faço a “Miragem”. O fio condutor seria a evocação de episódios marcantes da vida de uma mulher que foi rainha de um clube de futebol do Interior gaúcho em 1952. Mas não consegui combinar organicamente os episódios de maneira a potencializar o que foi colocado em cena. Qual seria o tema da peça (sim, claro, se pode discutir até se isso é necessário)? É o medo? A ascensão e queda de uma love story? As relações entre um casal? A forma de lidar com a memória? A maturidade que abranda releva as diferenças?

O que o público presencia durante os 80 minutos de espetáculo é uma sucessão potente de situações, interpretadas por Marina e por Marcelo Mertins, em que vários elementos de encenação (luz, atuação, cenário, texto, gestos, intenções, figurinos, projeções, vídeos, trilha sonora…) ocupam o palco em pé de igualdade. Praticamente todas as cenas tinham a sua cereja estética. Um vídeo mostrou o casal de noivos sendo circundado em alta velocidade pelas motos de um Globo da Morte, em uma metáfora surpreendente de quando a paixão faz um casal se sentir é imune às demandas da vida, como se eles fossem o astro rei de um sistema solar. Ou o momento em que Marina atua simultaneamente como alguém que interroga uma menina, emulando o Jeckyll e Hyde que todos escondemos. A cena em que a protagonista narra o assédio sexual um açougueiro também ecoou fundo, sinalizando o mal absoluto no sangue do avental.

A cena de nudez, quando o casal se relaciona, merece um elogio à parte. Nudez não é novidade no teatro, mas a proximidade de corpos desnudos sempre é problema, não tanto pelo constrangimento dos atores (e do público), mas pela dificuldade de se conseguir um resultado esteticamente harmônico e delicado. A direção de corpo de Eva Schulconsegue esse feito, com o talento que mostrou também no espetáculo“Tão Longe, Tão Perto, Tão Perto, TÃO…”.

Outra providência que merece ser observada é a manipulação dos fundos em uma espécie de retroprojetor à vista do público. “Miragem” exercita um vai-e-vem entre atuação e performance. A execução da música e dos fundos do palco ao vivo, a entrega dos atores (Marina inclusive usa como figurino um vestido que era de sua mãe), a presença de Marina em vídeos e ao vivo inibe qualquer possibilidade de o público se deixar dominar emocionalmente pela cena. Somos dominados e abandonados aos trancos por emoções e impressões fortes. Como se, por minutos, mirássemos uma miragem, e logo perdêssemos as ilusões.

O vídeo final, entretanto, concede na medida exata a reflexão e a emoção. Ao mesmo tempo em que nos questionamos se as histórias que assistimos correspondem de fato às vidas do casal de idosos entrevistados, é impossível não se emocionar com os depoimentos e se tornar cúmplice do ponto de vista da câmera, que se coloca no papel de um observador arguto, mas generoso.

O vídeo de encerramento garante ainda um feito de metalinguagem. Na pequena entrevista, o casal evoca suas vidas revisitando velhas fotografias, e isso acaba por legitimar a experiência que público e artistas estão compartilhando ao refazerem vidas com a ferramenta da arte. Em “Miragem”, fruímos uma ficção montada a partir de lembranças. Mas “Miragem” nos chama a atenção para o fato de que as lembranças, na forja do tempo, se moldam em ficção. Ao final da peça e da vida, tudo é miragem.

Mas a inquietação estética que experimentei ao sair da Álvaro Moreyra foi bem real.

Fonte: Relato Mendonça _ Tumbrl

http://relatomendonca.tumblr.com/post/97908575036/a-vida-e-um-jogo-de-espelhos?og=1&fb_action_ids=10202771646951900&fb_action_types=tumblr-feed%3Apost&fb_source=other_multiline&action_object_map=%7B%2210202771646951900%22%3A260775630712831%7D&action_type_map=%7B%2210202771646951900%22%3A%22tumblr-feed%3Apost%22%7D&action_ref_map=%5B%5D

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