entrevista Marina no site do Goethe – Institut

http://www.goethe.de/ins/br/poa/ver/acv/bku/2015/pt15025198.htm

clique aqui: entrevista Marina site goethe

A instalação performática Fábrica de Calcinha, dos artistas Marina Mendo, Rossendo Rodrigues, Ricardo Pavão e Marta Felizardo, criou um ambiente imersivo a partir da sonoridade urbana em pleno Goethe-Institut Porto Alegre, como parte do Festival de Artes 50 Anos. Apresentado ao longo dos dias 5, 7 e 9 de dezembro, o projeto partiu de uma pesquisa sobre a paisagem sonora do centro da cidade, em especial o canto de sobrevivência dos vendedores ambulantes. O arquivo sonoro construído pelo grupo foi manipulado e colocado em relação pelos artistas e ainda inspirou uma série de propostas performáticas em um ambiente que também contou com uma arquitetura de luz. A seguir, uma entrevista com Marina Mendo sobre o processo de criação do trabalho e seus possíveis desdobramentos.

Como surgiu a ideia de criar o projeto Fábrica de Calcinha? 

Desde novembro do ano passado, comecei a investigar a sonoridade e a escuta no processo de criação cênica no contexto de uma pesquisa de mestrado no PPGAC/UFRGS. A investigação artística partiu de poucas ideias e muitas perguntas, especialmente: se o objeto sonoro, um objeto perceptivo que a mente decodifica como som, poderia ativar o processo de criação cênica. Nessa exploração, consideramos não somente, mas de maneira privilegiada, o comportamento do ambiente acústico que estava à nossa volta, vivo, pulsante, interferente, provocador de escutas. Estávamos trabalhando no Departamento de Arte Dramática da UFRGS, localizado no centro de Porto Alegre. Assim que Fábrica de Calcinha foi atravessado pelas expressões sonoras deste entorno, dentre outros estímulos.

 Como funcionou o processo de colaboração entre os diferentes artistas na criação e realização do projeto?

A criação colaborativa é muito rica e convoca capacidades relacionais que, trabalhando com artistas da mesma área, com um certo vocabulário e referências comuns, não nos são tão exigidas. Especialmente no que se refere à diferença de modos de pensar, perceber e fazer, é que reside a riqueza e as dificuldades do trabalho em colaboração. Ricardo vem da música, faz músicas, compondo muito para teatro, Rossendo trabalha corporalmente, vem de trajetórias pela dança e teatro, Marta é arquiteta e pensa iluminação de interiores e artes visuais, e eu sou artista de teatro com forte interferência da música ao vivo em cena. Então, desses lugares tão diferentes, como fazer interagir, produzir relações de retroalimentação entre os artistas, uma relação na qual alguém oferece um material, o outro transforma, devolve o material transformado, mobilizando interações novas… Lentamente, o que era um embrião vai tomando forma a partir dessas relações. Em momentos críticos e de decisões quanto à forma, fizemos uma dinâmica de tentar perceber o quê e como o outro percebe o trabalho, qual a sua perspectiva, o que nos desafiou a libertar o material de intenções pessoais, por melhores que fossem, de ser isto ou aquilo, de ter esta ou aquela forma.

Houve descobertas em relação ao processo criativo de vocês?

Houve muitas descobertas, em especial no que se refere a entender como criar a cena no espaço, em presença de todos os elementos (luz, sonoridade, performance). Abrimos mão do magnetismo de um referencial externo como um texto, roteiro, tema ou ideia pré­ concebida, aprendemos a fazer agir os elementos, a escutá­los, perceber suas possibilidades, investir nelas. Também foi importante nos convencermos de que a exposição dos modos de fabricação das cenas ofereceriam matéria para a percepção do público. Às vezes a gente tenta ocultar do público isto ou aquilo, quando o que captura sua atenção é justamente ver as coisas se transformando, presenciar os modos de fabricação. O material pode, assim, agir sobre o público, provocar relações, libertando a percepção para que cada um se relacione com a experiência à sua maneira.

Como pensam o projeto daqui pra frente? Ele segue? Há possibilidades de desdobramentos?

Poder estruturar um material de pesquisa tão variado e compartilhar impressões com o público foi muito estimulador. Fábrica de Calcinha tem potencial e vida para continuar se desdobrando. O processo de criação deixou muitos vestígios, um arquivo de sonoridades enorme e variado, evidentemente não totalmente explorado. O centro da cidade se revelou fonte inesgotável de recursos sensíveis e poderíamos ainda explorar outros aspectos e ambientes sonoros no rastro do que já exploramos. Gostaríamos, sim, de, em algum momento propício, extrair da obra que apresentamos uma dramaturgia sonora para um espetáculo. Vamos ver… o que o futuro nos reserva.

entrevistadora: Fernanda Albuquerque é curadora e pesquisadora na área de Artes Visuais e participou da curadoria do Festival de Artes 50 anos Goethe­Institut Porto Alegre

fotos de Adriana Marchiori

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