8 de março é todo dia!

fotos Adriana Marchiori
foto Adriana Marchiori
fotos Adriana Marchiori

Parem de nos sangrar! Em Porto Alegre, onde Judas perdeu as bota, no Brasil, na Síria, na Índia, na África, dentro ou fora de casa, no trabalho, na rua ou no quarto, na cama ou no chão.

Esta cena aconteceu sobre as águas do quase morto Arroio Dilúvio, esgoto, lixão e moradia a céu aberto que atravessa a cidade de Porto Alegre. Esta cena foi quase ao final do espetáculo ILHA, que realizou apenas 2 apresentações em março de 2016 e padeceu à espera de verba pública destinada ao pagamento da cultura na cidade. Como não se sabe quando, nem como este trabalho chegará novamente a público, deixo aqui um testemunho sobre esta ILHA de mulheres, sobre ser artista, ser mãe e SER MULHER:

O trabalho de criação do espetáculo(sim é um trabalho diário que envolve muito tempo, dedicação e recursos) iniciou em uma oficina oferecida pelo projeto Ecopoética em agosto de 2016, onde as mulheres participantes riscaram o chão com sua expressão emancipada, gritando por direitos e respeito. Tal posicionamento ofereceu argumento e fundamento para a criação de uma ILHA de lixo flutuante sobre as águas de um arroio abandonado, habitada por mulheres. Na descoberta conjunta dos discursos sonoros e imagéticos que ocupariam a cena, a direção propôs que cada uma das atrizes realizasse e envolve-se o grupo em um ritual próprio.

O ritual que ofereci à ILHA veio de uma sensação indescritível de horror e congelamento dos sentidos vivida quando li notícia da morte de LUCÍA PEREZ, violentada e empalada aos 16 anos em Rosário, Argentina em outubro de 2016. Este acontecimento me emudeceu por muito tempo. Não conseguia desentortar-me por dentro ao imaginar Lucía e as cenas de sua morte. Não conseguia não pensar nisso, as imagens voltavam em sonhos, no meio do almoço, durante um passeio, e, voltavam mesmo contra a vontade, quando olhava para o rostinho de minha filha na época com 8 meses.

PAUSA

Dentre os tantos direitos que a mulher veio conquistando e perdendo no Brasil pós-golpe – além do aborto em caso de violência sexual ou risco de vida para mãe e/ou criança, igualdade de direitos trabalhistas, raciais, religiosos, além da tão controversa reforma da previdência social – está o direito a PARIR seus filhos como e onde desejar com TODA assistência que precisar.

Sempre que possível fujo do hospital, o alívio prometido em muitas propostas da indústria farmacêutica e hospitalar muitas vezes nos levam mais saúde embora do que propriamente nos trazem alívio. Em outras são necessários e, em qualquer ato de consumo, haveremos de ter o direito a conhecer e escolher o que estamos botando pra dentro. De modo que, amparada por muita informação e sobretudo pela experiência de mulheres amorosas e competentes no ofício de acolher e cuidar da vida, pari minha filha em casa onde foi acolhida com todo respeito e humanidade que eu e o pai dela acreditávamos lhe serem adequados.

O parto é uma experiência decisiva para o corpo em todas as dimensões físicas emocionais e espirituais da saúde da mulher em trabalho de parto e pós-parto, e da criança. Parir não é doença, a mulher tem SIM o direito às informações e condições para escolher como e onde viverá esta transformação irreversível e, receber o suporte para tanto. Deveria ser prioridade em termos de saúde pública e responsabilidade social, o modo como as pessoas vem e vão-se deste mundo. Mas não é.

VOLTANDO A CENA

Uma das imagens do parto de minha filha que jamais vou esquecer é aquele bebezinho chegando aos meus braços envolta pelo sangue da placenta que a nutriu por quase 42 semanas. Com seu chorinho fininho, fininho…com um cheiro maravilhoso que eu queria ter colocado num vidro de perfume pra sempre.

Ao unir estas imagens, da morte de Lucía e do nascimento de minha menina, oferecia assim a esta ILHA uma imagem plasmada pela variedade e ambiguidade das sensações da vida que alimentam o fazer artístico. Uma imagem que para mim, fechava o ciclo do nascimento de uma mulher e da morte de outra, sob o signo do sangue. Um ritual em louvor ao sangue materno que nutre a vida em seu ventre, uma reza forte de um grupo de artistas por nenhuma a menos, para que NINGÉM MAIS morresse derramando o próprio SANGUE. Em Porto Alegre, onde Judas perdeu as bota, no Brasil, na Síria, na Índia, na África, dentro ou fora de casa, na rua ou no quarto, na cama ou no chão.

SOBRE O ESPETÁCULO ILHA:

Um aglomerado de lixo flutua sobre as águas contaminadas por restos da cidade. Espaço habitado por mães, filhas, irmãs, amigas, guardiãs, guerreiras, artistas, pensadoras, geradoras de vida e de força – as mulheres. Um território das que purgam o sofrimento do que foi rapidamente jogado fora, aquelas que transformam o lixo em seu quinhão sagrado. Uma singela e respeitosa homenagem à força e resiliência femininas. Quando olhamos a Ilha, ela olha de volta.

Ficha técnica: Criação e performance: Louise Pierosan, Luciane Panisson, Margarida Rache e Marina Mendo. Concepção e direção geral: Rossendo Rodrigues. Cenografia: Rodrigo Shalako. Figurinos e consultoria estética: Margarida Rache. Provocações Sonoras: Marina Mendo. Produção: Liege Biasotto – Cuco Produções. Assistência de Produção e Programação Visual: André Varela. Integral Bambu: Jô Kirst Fotografias: Gabriel Dienstmann e Adriana Marchiori Vídeos: Natália Utz. Realização: Pulpería Cultural Financiamento: FUMPROARTE/ PMPA

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